
Aquela ferida na perna que não fecha há meses — ou anos. Que melhora um pouco, piora de novo, e já passou por dezenas de pomadas e curativos. Se essa história parece familiar, há grande chance de se tratar de uma úlcera venosa: a causa de cerca de 80% das úlceras de perna.
A boa notícia? Com o diagnóstico certo e o tratamento adequado, a grande maioria das úlceras venosas cicatriza. O problema é que muitas pessoas passam anos tratando apenas a ferida — sem tratar a doença que está por trás dela.
Ainda não leu? Veja também: O que são feridas? Entenda tipos, cicatrização e quando procurar ajuda e Avaliação de feridas: como funciona e por que vai além do curativo
A úlcera venosa é uma ferida aberta na perna causada pela Insuficiência Venosa Crônica (IVC) — uma doença em que as veias das pernas não conseguem mais bombear o sangue de volta ao coração com eficiência.
Para entender de forma simples: as artérias levam o sangue rico em oxigênio para as pernas, e as veias fazem o caminho de volta, levando o sangue “usado” para ser renovado. Quando as válvulas das veias falham, esse sangue fica acumulado nas pernas, aumentando a pressão dentro das veias — a chamada hipertensão venosa.
Esse acúmulo impede a chegada adequada de oxigênio e nutrientes aos tecidos. A pele vai sofrendo: surgem manchas escuras, inchaço, eczemas e, por fim, a úlcera.
A úlcera venosa raramente aparece do nada. Antes dela, o corpo costuma dar vários avisos:
Quando a ferida aparece, ela costuma ter características próprias: localiza-se geralmente na parte de baixo da perna, perto do tornozelo, é escavada e profunda, libera bastante secreção e, na maioria das vezes, dói pouco — diferente das feridas arteriais, que doem muito.
A insuficiência venosa tem forte relação com a rotina e o histórico de cada pessoa. Os principais fatores de risco são:
Essa é a pergunta mais importante deste artigo. A úlcera venosa é a consequência — a causa é a pressão alta dentro das veias. Enquanto essa pressão não for controlada, nenhum curativo, por melhor que seja, resolve de forma duradoura. É por isso que tantas pessoas convivem com a mesma ferida por anos, trocando de pomada sem sucesso.
O tratamento eficaz atua em duas frentes ao mesmo tempo: a ferida e a doença venosa.
O tratamento mais eficaz para a úlcera venosa é a terapia compressiva — o uso de ataduras ou meias elásticas que comprimem a perna de forma técnica e controlada, do pé ao joelho. A compressão reduz o acúmulo de sangue nas pernas, melhora o retorno venoso e potencializa o trabalho da musculatura da panturrilha.
Entre os métodos mais utilizados estão o enfaixamento multicamadas, a bota de Unna (uma bandagem que endurece e molda a perna) e as meias elásticas de compressão gradual.
Um alerta fundamental: a terapia compressiva só pode ser feita após avaliação profissional. Antes de comprimir, é obrigatório confirmar que a circulação arterial está preservada — em pessoas com doença arterial, a compressão é contraindicada e pode causar danos graves, incluindo risco de amputação. É mais um motivo pelo qual o enfaixamento por conta própria é perigoso.
A úlcera venosa costuma liberar muita secreção, e o excesso de umidade machuca a pele ao redor e atrasa a cicatrização. Por isso, são usados curativos especiais com alta capacidade de absorção, além de coberturas antimicrobianas quando há sinais de infecção. A escolha muda conforme a fase da ferida — daí a importância da reavaliação a cada troca.
O paciente é parte ativa do tratamento:
Aqui mora uma das informações mais importantes — e menos faladas: o tratamento da úlcera termina, mas o da insuficiência venosa continua para sempre.
A úlcera venosa tem alto índice de recidiva, ou seja, de voltar. A principal arma contra isso é o uso rotineiro e correto das meias elásticas de compressão após a cicatrização. Pacientes que mantêm esse cuidado dificilmente veem a ferida retornar — e ganham qualidade de vida.
A ferida, sim: com tratamento adequado, a grande maioria cicatriza. A insuficiência venosa, que é a causa, é uma condição crônica que precisa de controle contínuo — principalmente com compressão e mudanças de hábitos.
Varia conforme o tamanho da lesão, o tempo de evolução e a adesão ao tratamento. Com terapia compressiva bem indicada e curativos adequados, a evolução costuma ser visível em poucas semanas.
Não é recomendado. A meia errada — ou usada por quem tem doença arterial não diagnosticada — pode causar mais dano que benefício. A compressão certa, no grau certo, é definida após avaliação vascular.
Na maioria das vezes, dói pouco — diferente das úlceras arteriais e hipertensivas, que são muito dolorosas. Mas a ausência de dor não significa que a ferida não seja séria.
Úlceras de longa duração merecem atenção especial: em casos raros, podem evoluir para lesões malignas. Feridas com aspecto vegetante, que crescem ou sangram com facilidade, devem ser avaliadas e, se necessário, biopsiadas.
A úlcera venosa é a ferida crônica mais comum nas pernas — e também uma das mais negligenciadas. Tratar apenas o curativo, sem cuidar da insuficiência venosa, é enxugar gelo. Com avaliação correta, terapia compressiva e acompanhamento, essa é uma história que pode ter fim.
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Este conteúdo foi adaptado do livro “Feridas e Curativos”, de autoria da equipe Cicatriza, e tem caráter informativo. Ele não substitui consulta com profissional de saúde.