
Quando uma ferida não cicatriza, a primeira reação de muita gente é trocar de pomada, testar receitas caseiras ou simplesmente esperar. Mas o passo mais importante do tratamento acontece antes de qualquer curativo: a avaliação.
Avaliar uma ferida não é apenas olhar para a lesão. É investigar o paciente como um todo — sua história, suas doenças, sua circulação, sua rotina. É essa investigação que revela a causa da ferida. E só conhecendo a causa é possível tratá-la de verdade.
Neste artigo, você vai entender como funciona uma avaliação profissional de feridas e o que esperar da primeira consulta.
Ainda não leu? Veja também: O que são feridas? Entenda os tipos e a cicatrização.
A avaliação começa pela história clínica — uma conversa detalhada, quase uma investigação de detetive. O profissional vai querer saber, por exemplo:
Cada resposta é uma pista. Uma pessoa que trabalha muitas horas em pé, por exemplo, tem mais chance de desenvolver úlcera de origem venosa. Já quem tem diabetes precisa de atenção redobrada com os pés.
Depois da conversa, vem o exame físico — e ele não se limita à ferida. O profissional observa o estado geral do paciente: hidratação, nutrição, modo de caminhar, presença de inchaço, manchas escuras ou varizes nas pernas. Tudo isso ajuda a montar o quebra-cabeça.
Um dos momentos mais importantes da avaliação é a palpação dos pulsos do pé e do tornozelo. Esse exame simples, feito apenas com as mãos, indica se o sangue está chegando adequadamente ao membro.
Quando os pulsos estão ausentes, pode haver isquemia — falta de circulação arterial. É uma condição grave: tratar a ferida da forma errada nesses casos pode acelerar a perda do membro. Por isso, na ausência de pulsos, o paciente deve ser encaminhado com urgência ao cirurgião vascular.
Em caso de dúvida, o profissional pode realizar o Índice Tornozelo-Braço (ITB), um exame que compara a pressão arterial do braço com a do tornozelo e ajuda a identificar o grau de comprometimento da circulação.
A grande maioria das úlceras de perna tem origem vascular — e saber se o problema é nas veias ou nas artérias muda completamente o tratamento. Alguns sinais ajudam a diferenciar:
| Característica | Doença venosa | Doença arterial |
|---|---|---|
| Mais comum em | Mulheres | Homens |
| Dor | Geralmente dói pouco | Dor intensa no membro |
| Início | Crônico, com recidivas | Mais agudo |
| Relação com diabetes | Não interfere | Risco 4x maior |
| Relação com tabagismo | Não interfere | Maior risco e gravidade |
| Rotina associada | Muito tempo em pé ou sentado | Sedentarismo |
A úlcera venosa costuma vir acompanhada de inchaço, varizes, manchas escuras na pele e sensação de peso nas pernas. Já a ferida arterial tende a ser pálida, seca e muito dolorosa.
Existe ainda a úlcera hipertensiva: uma lesão pequena, arredondada e extremamente dolorosa — a dor é desproporcional ao tamanho —, ligada à pressão alta grave e mal controlada. Muitas vezes ela passa anos sem diagnóstico simplesmente porque ninguém mediu a pressão do paciente.
Só depois de conhecer o paciente e sua circulação é que se avalia a lesão propriamente dita. Nessa etapa, o profissional analisa as chamadas barreiras da cicatrização — os quatro fatores que mais impedem uma ferida de fechar:
É a partir dessas barreiras que o profissional escolhe o curativo certo para cada fase da ferida — e é por isso que não existe um único produto que funcione para todas as lesões.
Algumas situações não podem esperar e exigem encaminhamento imediato ao especialista:
Nesses casos, cada dia faz diferença entre um tratamento simples e uma complicação grave.
Se a ferida não melhora em 2 semanas, sim — independentemente do tamanho. Lesões pequenas podem esconder problemas de circulação importantes, especialmente em quem tem diabetes ou pressão alta.
Não. A ferida muda ao longo do tratamento, e a avaliação deve ser refeita a cada atendimento. É isso que permite ajustar o curativo à fase certa da cicatrização.
Porque a ferida é, muitas vezes, consequência de um problema de circulação ou de uma doença não controlada. Sem investigar a causa, qualquer curativo é apenas paliativo.
Fazer curativo em casa sem avaliação profissional envolve riscos reais. O produto errado pode atrasar a cicatrização, macerar a pele ao redor ou mascarar uma infecção em andamento. Receitas caseiras — como açúcar, borra de café, folhas ou pomadas indicadas por conhecidos — podem contaminar a ferida e agravar o quadro. E o risco maior: em feridas com problema de circulação arterial, qualquer manipulação inadequada pode acelerar a perda do membro. Após a avaliação, o profissional pode sim orientar trocas de curativo em casa, com o produto certo e a técnica correta — mas o ponto de partida deve ser sempre a avaliação especializada.
Uma avaliação bem feita é o que separa o curativo que apenas cobre a ferida do tratamento que realmente cicatriza. Antes de qualquer produto ou técnica, é preciso responder à pergunta essencial: por que essa ferida existe?
Está com uma ferida que não cicatriza? Na Cicatriza, a avaliação é completa: história clínica, exame vascular e análise detalhada da lesão, com plano de tratamento individualizado. Agende sua avaliação.
Este conteúdo foi adaptado do livro “Feridas e Curativos”, de autoria da equipe Cicatriza, e tem caráter informativo. Ele não substitui consulta com profissional de saúde.